Insegurança Alimentar no Brasil

A insegurança alimentar é um problema de saúde pública e representa a violação do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), caracterizando-se pela dificuldade ou impossibilidade de acesso regular e permanente a alimentos em quantidade e qualidade suficientes, sem comprometimento de outras necessidades essenciais. No Brasil, a insegurança alimentar está relacionada com desigualdades socioeconômicas, como à pobreza, desemprego, baixa escolaridade e às disparidades regionais, afetando principalmente famílias em situação de maior vulnerabilidade social. Além disso, seus impactos transcendem a dimensão nutricional, estando associados ao aumento da morbimortalidade, pior qualidade de vida e prejuízos ao desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial de crianças e adolescentes.

Nas últimas décadas, o Brasil apresentou importantes avanços no enfrentamento da fome por meio da implementação de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) mostram que, aproximadamente 24,2% dos domicílios brasileiros apresentavam algum grau de insegurança alimentar em 2024, evidenciando que milhões de brasileiros permanecem em situação de vulnerabilidade alimentar. 

Na Atenção Primária à Saúde (APS), a identificação precoce das famílias em risco de insegurança alimentar tornou-se uma estratégia para direcionar intervenções intersetoriais. Em que destaca-se a Triagem para Risco de Insegurança Alimentar (TRIA), instrumento composto por duas perguntas derivadas da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). A TRIA foi validada para a população brasileira, apresentando elevada sensibilidade e acurácia para identificar domicílios em risco de insegurança alimentar. Desde 2023, sua aplicação foi incorporada ao sistema e-SUS APS, permitindo que profissionais das equipes de Saúde da Família (eSF) identifiquem de forma precoce as famílias em vulnerabilidade, realizando o encaminhamento para ações de assistência social, segurança alimentar e acompanhamento em saúde.

A utilização de instrumentos de rastreamento como a TRIA fortalece o papel da Atenção Básica como coordenadora do cuidado e amplia a capacidade do Sistema Único de Saúde de atuar sobre os determinantes sociais da saúde. Desse modo, além de subsidiar o planejamento das ações em saúde, a identificação da insegurança alimentar possibilita o desenvolvimento de estratégias integradas entre o SUS, o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), contribuindo para a garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada e para a redução das desigualdades sociais e em saúde.

ARAÚJO, M. L.; MENDONÇA, R. D.; PEREIRA, S. C. L.; LOPES, A. C. S. Dimensões da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar na Atenção Primária à Saúde. Demetra: Alimentação, Nutrição & Saúde, Rio de Janeiro, v. 16, e56822, 2021. 

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Boletins TRIA. Brasília, 2026. 

CARVALHO, R. E. S. et al. Validade do instrumento para triagem de domicílios em risco de insegurança alimentar em diversos estratos da população brasileira. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 38, n. 7, e00239521, 2022. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

pt_BRPT_BR