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11.04 O processo de luto em meio a pandemia do COVID-19

A doença causada pelo COVID-19 tem sido considerada uma crise grave tanto sobre o ponto de vista epidemiológico quanto psicológico (Weir, 2020), devido às alterações emocionais, comportamentais e cognitivas que as pessoas têm vivenciado nesse período (Enumo et al. 2020). As pandemias em geral, se associam a perdas em massa, tanto de vidas humanas (Scanlon e McMahon, 2011), bem como de estabilidade, rotina, entre outros. No caso do COVID-19, o processo de terminalidade e morte tem sido muito afetado (FIOCRUZ, 2020), em função das medidas de distanciamento social adotadas em alguns países (Ferguson et al. 2020; Walker, 2020).

Todo o processo de luto é bastante complexo, pois cada indivíduo o vivencia de forma distinta e individual. O meio em que a pessoa encontra-se inserida, as diversas culturas, bem como todo o contexto da perda influencia muito na forma como a pessoa vai encarar o processo de luto (Ramos, 2016).

Segundo Worden (1983) há tarefas que devem ser realizadas para que seja completado esse processo, que consistem em: aceitar a realidade da morte, experienciar e processar a dor, adaptação ao ambiente no qual está faltando a pessoa que faleceu e reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e continuar a vida. Sendo que essas necessariamente não seguem uma ordem específica e podem ser retrabalhadas várias vezes em cada pessoa.

Normalmente os rituais de passagem entre a vida e a morte e todo o processo de enlutamento varia conforme cada sociedade e suas diferenças culturais, religiosas e cosmológicas, bem como as circunstâncias em que ocorre a morte. Esses rituais fúnebres costumam envolver desde homenagens e cerimônias de despedidas, até modos diversos de tratamento dos corpos, como cremação ou enterro (FIOCRUZ, 2020).

No entanto, as mortes causadas pelo novo coronavírus trazem características particulares que podem interferir no luto das pessoas envolvidas. Devido as suas especificidades de contágio, além de mais frequentes, ocorrem muitas vezes de forma abrupta e demanda rituais diferentes daqueles com os quais as culturas estão familiarizadas. Podendo complicar a elaboração do luto normal e aumentar risco de agravar sofrimentos psíquicos individuais e coletivos (FIOCRUZ, 2020).

Pode-se observar o luto antecipatório, onde normalmente é a experiência quando há perspectiva de morte, acostumando o emocional para a perda (Schmidt et al. 2011). Nesse caso esse luto tende a ser afetado, pois em alguns casos a situação se agrava rápido e o paciente vai a óbito (Bajwah et al., 2020). E o fato de não poder ter a presença do familiar junto ao paciente infectado, nos rituais de despedida (Lisbôa e Crepaldi, 2003), sepultamento com caixão lacrado ou a cremação do corpo, ou seja, com as ações integrantes do processo de luto deixando de ser realizadas por seus entes queridos, aumenta as possibilidades para o desenvolvimento de um luto mais complicado (onde todo esse processo é mais intenso e duradouro do que o esperado) (FIOCRUZ, 2020).

No contexto mundial, os países estão atuando em diferentes cenários e possibilidades em relação aos enterros, funerais e rituais de despedidas. As orientações e recomendações técnicas e científicas para o enfrentamento ao vírus COVID-19 têm sido o ponto central, incluindo todo o cuidado dos corpos após a morte, de modo a diminuir os riscos sanitários e de contaminação (BRASIL, 2020).

De acordo com FIOCRUZ (2020), em alguns países asiáticos como a China, foi proibido qualquer ritual de despedida aos mortos, para reduzir o risco de contaminação. Já em países europeus, como a Itália, os funerais foram restritos a poucas pessoas presentes para o ritual de velório, cremação ou sepultamento. Diante disso, na ausência de velórios tradicionais, é necessário se pensar em outras formas simbólicas das pessoas se despedirem dos seus entes queridos, recebendo

todo o apoio da família e da comunidade local, dando significado ao que estão enfrentando (Weimann e Didoné, 2020).

Destacam-se também a importância dos profissionais de saúde e agentes comunitários de saúde (que possua vínculo próximo), pois eles podem ser importantes aliados, fornecendo espaço de escuta às famílias e auxiliando nos processos de reorganização após a morte. E em casos mais complexos, caso seja necessário, é importante buscar a ajuda de um especialista para auxiliar nesse processo (Worden, 2013).

Cada pessoa manifesta seu luto de maneira individual, não devendo existir imposição de uma sequência rígida normatizando esse processo. É uma experiência única e pessoal e precisa ser respeitado (FIOCRUZ, 2020).

REFERÊNCIAS


Bajwah, S., Wilcock, A., Towers, R., Costantini, M., Bausewein, C., Simon, S. T., … Higginson, I. J. (2020). Managing the supportive care needs of those affected by COVID-19. European Respiratory Journal , 55 , 2000815. https://dx.doi.org/10.1183/13993003.00815-2020
BRASIL. Manejo de corpos no contexto do novo coronavírus – COVID-19. Ministério da Saúde: Brasília, março/2020. Disponível em: https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/ marco/25/manejo-corpos-coronavirus-versao1-25mar20-rev5.pdf . Acesso em: 15 set. 2020.
Enumo, S. R. F., Weide, J. N., Vicentini, E. C. C., Araujo, M. F., & Machado, W. L. (2020). Enfrentando o estresse em tempos de pandemia: proposição de uma cartilha. Estudos de Psicologia (Campinas), 37 , e200065. http://dx.doi.org/10.1590/1982-0
Ferguson, N., Laydon, D., Nedjati Gilani, G., Imai, N., Ainslie, K., … Ghani, A. (2020). Report 9 : impact of Non-Pharmaceutical Interventions (NPIs) to reduce COVID19 mortality and healthcare demand . London: Imperial College. Retrieved from http://hdl.handle.net/10044/1/77482
Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ (2020). Saúde mental e atenção psicossocial na pandemia COVID-19 : processo de luto no contexto da COVID-19 . Rio de Janeiro: Autor. Disponível em: https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/wp-content/uploads/2020/04/Sa%c3%bade-Mental-e-Aten%c3%a7%c3%a3o-Psicossocial-na-Pandemia-Covid-19-processo-de-luto-no-contexto-da-Covid-19.pdf
Lisbôa, M. L., & Crepaldi, M. A. (2003). Ritual de despedida em familiares de pacientes com prognóstico reservado . Paidéia , 13 (25), 97-109. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2003000200009
RAMOS, V. A. B. O processo de luto. Psicologia. O Portal dos Psicólogos, ISSN 1646- 6977, 2016. Disponível em: https://www.psicologia.pt/artigos/textos/A1021.pdf. Acesso em: 09 de setembro de 2020.
Scanlon, J., & McMahon, T. (2011). Dealing with mass death in disasters and pandemics. Disaster Prevention and Management , 20 (2), 172-185. https://dx.doi.org/10.1108/09653561111126102
Schmidt, B., Gabarra, L. M., & Gonçalves, J. R. (2011). Intervenção psicológica em terminalidade e morte: relato de experiência. Paidéia , 21 (50), 423-430. https://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2011000300015
Walker, P. G., Whittaker, C., Watson, O., Baguelin, M., Ainslie, K. E. C., Bhatia, S., … Ghani, A. C. (2020). The global impact of COVID-19 and strategies for mitigation and suppression . London: Imperial College. Retrieved from https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/Imperial-College-COVID19-Global-Impact- 26-03-2020v2.pdf
WEIMANN, F.; DIDONÉ, J. Intervenções em situação de luto pelo COVID-19. Brasil, 2020. WEIR, K. (2020a, April, 1). Grief and COVID-19: mourning our bygone lives. American Psychological Association . Retrieved from https://www.apa.org/news/apa/2020/04/grief-covid-19

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